"Para onde vão os guarda-chuvas", de Afonso Cruz - Participação dos leitores na Página do Facebook

"Para onde vão os guarda-chuvas" - Facebook

 

Participação de Marta Sales 

19.10.13

 

"Quase pai

Chamavas-te António Sereno. Sereno foi tudo o que nunca foste e adorava esse torcido sinal de Deus te ter espetado um apelido tão contrário ao sangue vivo que te corria nas veias.
Nabão, a alcunha que já tinham dado ao teu pai lá na aldeia, foi a herança que ele te deixou. Abandonou-te ainda criança. Agora que penso: será que ele te levou a paz? Poderias ter sido sereno quando eu nem ainda um esboço na maquete dos Deuses? Amei-te sem serenidade. Prefiro pensar que não.
Um homem gigante. Nos gestos de ternura. Tinhas o sorriso mais bonito do planeta (sei que agora no Céu vences qualquer outro que se rasgue por lá) e tratavas-me por magricela. Sempre magricela, avô. Até à semana da tua morte e nessa altura eu já não era tão magrinha assim. Até ao fim fui a tua magricela. Esse termo era só nosso. Vai ser sempre só nosso. Não admito que ninguém use essa palavra para me enfeitar. Depois de ti podem tratar-me por espeta-figos, esqueléctica, esguia. Tudo menos magricela!
Recordo cada uma das tuas manhas. O teu talher era diferente dos outros colocados à mesa, a salada temperada para ti era sempre só tua. Gostavas da couves mal cozidas e de jogar sueca. Zangavas-te sempre comigo quando jogávamos juntos. Caramba avô eu sempre fui distraída, o jogo para mim era apenas isso – um jogo. Tu entregavas-te às cartas com a importância de quem está a gerir uma crise financeira e não pode perder-se nem um feijão no meio dessa estratégia apurada. Espírito desportivo a rasar o zero absoluto. E eu, sempre a sorrir quando ralhavas para estar atenta aos sinais. Fui tão incompetente a jogar contigo. Desculpa avô. E desculpa-me aquela vez em que te envergonhei porque atirei pedras à carrinha do cigano. Fizeste-me ir lá pedir-lhe desculpa. A casa do cigano. Ficaste à minha espera na entrada do prédio. Abandonaste-me no meu erro. Nunca esqueci a lição. (Também não se atiram pedras às carrinhas dos ciganos mais do que uma vez na vida, podias ter sido mais brando comigo). E desculpa por te roubar os restinhos de cerveja preta que deixavas no copo em cima da mesa. (Esta já sei que te vai deixar em brasa – pronto está dito).
Perante a diferença, perante a mudança tinhas a virtude de compreender aquilo que a maior parte das pessoas da tua geração achariam incompreensível. Talvez por teres sido sempre um jovem. A tua alma era a mais nova de todos nós na família. Terias já mais de sessenta anos e desapareceste numa passagem de ano. Todos com o coração em prantos. À tua procura madrugada fora sem saber onde. Mobilizada toda uma aldeia para revistar valetas e matas. Chegaste de manhã com um chapéu triangular preso na careca e com um apito daqueles que esticam como cobras quando soprados. A avó esteve para te matar nesse dia não fosse a alegria de ter descoberto que não tinhas morrido. Ainda duraste muito depois disso e as tuas asneiras também. Não te vou relembrar todas não vá por lá Deus ler isto e arrepender-se de te ter deixado entrar Aí.
O ribatejano que não bebia vinho. Só cerveja preta. Abusavas dela por períodos em que te entregavas aos excessos. Paravas meses seguidos de beber sempre que pressentias que te estava a fazer mal. Avô, herdei isso de ti com os cigarros. Gosto deles. Mas abandono-os quando sinto que se estão a apoderar de mim. Depois volto. Uma relação vício/aversão a roçar o borderline que não te irei explicar porque não aprendeste inglês. Sabias português e pouco que nos arrozais não havia cartilhas e sim pés de molho todo o dia. E os dia durava desde que o sol aparecia até ele desistir.
Trabalhaste muito. Eu também sou assim avô. Mas gozaste muito. Desculpa avô mas eu também sou assim.
Um brinde a ti. Com cerveja preta.

A tua magricela"   

 

 

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publicado por Editora Objectiva às 11:39 | link do post | comentar